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segunda-feira, 18 de maio de 2015

Market Look com Daguito Rodrigues


Essa semana conversei com Daguito Rodrigues, Diretor Regional de Criação para América Latina (P&G) e Diretor de Criação na agência Publicis Brasil. Falamos sobre criação, co-criação e erros em campanhas. Confira o Market look desse redator que acumula prêmios nos principais festivais de publicidade e criação do mundo, como Cannes Lions, One Show, D&AD, Clube de Criação e outros.

Market Look com Daguito Rodrigues

Blog do Fernando Coelho: O que caracteriza uma boa redação publicitária?

Daguito: O trabalho do redator é a base das ideias. Normalmente é dali que saem conceitos de campanha, ativações, anúncios etc. Muita gente, até mesmo dentro das agências, acha que o trabalho do redator são apenas as frases visíveis no trabalho. Não, a redação também está presente em um anúncio visual, um filme clipado ou uma ação na rua. Tudo isso parte de uma ideia que nasceu numa tela branca do Word do redator, mesmo que nenhuma frase apareça no produto final. Portanto, a boa redação publicitária é aquela que consegue estar dentro do brief, com todas as limitações e obrigatoriedades que este impõe, mas que também consegue ser atrativa e surpreendente. A boa redação, por exemplo, transforma um job que seria apenas mais um entre tantos, numa pérola de fazer brilhar os olhos. A boa redação não depende de grandes orçamentos: pode ser um spot bem escrito, um título inteligente ou um filme de diálogos bem roteirizado.

Blog do Fernando Coelho: pesquisa apresentada no SXSW aponta que as pessoas estão ficando cada vez mais avessas a publicidade. Qual a causa e como mudar essa realidade?

Daguito: Isso é natural com qualquer forma de comunicação. Os formatos se esgotam e vão se moldando a uma nova realidade. Filmes da Hollywood dos anos 30 são extremamente inocentes e bem diferentes dos atuais. Mesma coisa acontece com as séries de televisão: compare a qualidade de um Breaking Bad ou Game of Thrones com os enlatados que a TV americana produzia nos anos 80. O público se acostuma com as fórmulas e vai ficando mais inteligente e, por isso, mais exigente. Para voltar a surpreendê-lo, é preciso mudar. E essa transformação também acontece na publicidade - como sempre aconteceu. Hoje, a publicidade é obrigada a sair de seus formatos tradicionais e entrar na vida do consumidor, mas apenas se conseguir proporcionar algo para ele: conteúdo, entretenimento, informação, prêmios etc. O consumidor de hoje, vivendo numa época de democratização do conteúdo e de facilidades de produção de informação, não quer ser passivo. Não quer uma publicidade invasiva e gratuita. Esta aí o desafio da publicidade: criar ideias que coloquem o consumidor numa posição ativa. Tão ativa que ele muitas vezes pode nem perceber que se trata de publicidade.

Blog do Fernando Coelho: como a co-criação, tendo o cliente como participante,  colabora em seu trabalho? Tem algum case que pode compartilhar conosco?

Daguito: A co-criação, não só do cliente como participante, é essencial para a boa propaganda nos dias de hoje. Mais do que nunca, precisamos de cabeças e braços - seja do cliente, da produtora, do fotógrafo, de outros departamentos da agência - trabalhando pela ideia para que ela se torne ainda melhor. Foi-se o tempo em que a dupla criava sozinha, entregava pro Diretor de Criação e a peça era produzida. Hoje as fichas técnicas são longas porque o tipo de propaganda que o consumidor exige muitas vezes só é atingido por esta quantidade maior de profissionais. E, neste sentido, a participação do cliente pode ser muito importante. Claro que os papéis não podem ser confundidos. O cliente paga uma agência para que esta crie as ideias. Ele pode entrar muitas vezes no processo co-criativo, mas não pode tentar substitui-lo. A co-criação é importante, o que o cliente não deve é tentar criar sozinho e simplesmente pedir para a agência viabilizar a ideia dele. Porque, desta maneira, não faz sentido ele pagar uma agência de publicidade. Tive vários casos na carreira em que a participação do cliente foi essencial para o desenvolvimento da ideia. É algo bem comum.

Blog do Fernando Coelho:  Quais os erros de outros redatores que deixam você com vergonha da profissão?

Daguito: Todos cometemos muitos erros, principalmente em início de carreira. Redatores mais iniciantes normalmente são mais sisudos e se sentem mais geniais que redatores com mais anos de carreira. Porque tudo é muito novo e o trabalho dele, normalmente, fica bem visível no produto final. O redator não pode se achar mais importante que toda a roda que faz girar a profissão. Não pode insistir em ideias fora do Brief - algo comum. Não pode valorizar uma ideia que não tenha nada a ver com o DNA da marca. O redator precisa ser estratégico e entender quais são os jobs pelos quais ele pode lutar. Vejo muitos se desgastando à toa por não terem esta visão estratégica. Se não conseguiu emplacar algo que queria neste job, muita calma. O que não vai faltar são outros jobs em cima da mesa nas semanas seguintes.

Blog do Fernando Coelho:  para finalizarmos, em uma frase, qual seu Market look? Qual sua visão do mercado e da vida?

Daguito: No meu trabalho e na minha vida pessoal, sempre busco dedicação com inteligência, relacionamento com honestidade e criatividade com estratégia. 

MINI-BIO DE DAGUITO RODRIGUES:

Daguito Rodrigues é Diretor Regional de Criação para América Latina (P&G) e Diretor de Criação na agência Publicis Brasil. Formado em Jornalismo na USP e Cinema na FAAP, cursou também Redação Publicitária na Miami Ad School ESPM. Tem mais de 15 anos de experiência no mercado de comunicação. Já foi repórter da Folha de S.Paulo e redator na Leo Burnett de Chicago. Acumula prêmios nos principais festivais de publicidade e criação do mundo, como Cannes Lions, One Show, D&AD, Clube de Criação, Prêmio Abril, FIAP, Wave Festival, entre outros.


terça-feira, 27 de maio de 2014

Look Market com Gilberto Giustina

Ter mente aberta, preconceito zero e uma grande dose de receptividade são habilidades fundamentais para quem deseja trabalhar com planejamento publicitário, e para falar um pouco sobre este mercado, convidei Gilberto Giustina, Diretor de Planejamento da Publicis Brasil para P&G, Nestlé, Habib's, UBS, SBT e outras marcas.
Aprecie sem moderação este bate papo que está muito bom!
Look Market com Gilberto Giustina
Blog do Fernando Coelho: Você é profissional de duas facetas, já atuou como cliente (marketing em veículos como Zero Hora, RBS TV e Rádio Atlântida) e como agência (como planner). Qual a riqueza de cada ambiente destes e como aproveitar essas experiências no dia a dia?
Gilberto: A oportunidade que tive de viver diferentes experiências profissionais fez muita diferença no jeito que olho o mercado hoje. Primeiro pela riqueza cultural de empresas como RBS, CEEE, GAD, DCS e Publicis. Depois pelo fato de exercitar os muitos pontos de vista que convivem em nosso mercado – veículo, cliente, agência. Sem contar que nessa trajetória pude explorar em profundidade as muitas plataformas que fazem minha rotina, como pesquisa, planejamento comercial, visão multimídia ou branding. Em cada posição que estive pude absorver um pouco do gosto por conviver com muitos e diferentes públicos, o que me faz muito feliz.
Blog do Fernando Coelho: Marcelo Serpa, certa vez disse que uma criação só terá valor se os clientes perceberem que somente através de uma grande ideia se entorta um gráfico de vendas para cima. Geralmente essa grande ideia vem inspirada por um bom planejamento. O que não pode faltar na hora de elaborar um Plano de Propaganda?
Gilberto: Não pode faltar uma grande dose de receptividade, de mente aberta, de preconceito zero. Acho que é o único ingrediente que se repete nessa receita de bolo sempre diferente. Cada plano precisa partir de muitas e diferentes perguntas. E é dessa capacidade que temos de questionar que surge o novo. De uma certa maneira, não deixa de ser um exercício de humidade. Olhar o mundo como criança é que faz germinarem as grandes ideias.
Blog do Fernando Coelho: Parafraseando Tião Teixeira (Criativo da década de 80/90), existem alguns trabalhos que parecem criativos, mas na verdade são um lixo - simplesmente porque não diz o que é preciso dizer. Você percebe isso de maneira forte no cenário atual? Trabalhos muito bons, porém sem conceito ou que simplesmente não atende a necessidade de marketing e comunicação do cliente?
Gilberto: Acho que ainda temos, sim, muito trabalho ruim indo para as ruas. E isso é uma responsabilidade compartilhada por todos, do cliente que aprova, do planejador que não é convincente, do criativo que se deixa seduzir pela própria ideia, dos prêmios que ainda valorizam a ideia pela ideia. Mas também percebo um movimento contrário muito forte. Crescem os concursos que premiam a estratégia e vejo clientes mais focados nas conexões entre a comunicação e a essência das suas marcas. Sem contar que convivo com muitos criativos que trabalham em conjunto com o planejamento – o que faz de fato o processo todo ser criativo no melhor sentido da palavra. Em tempos de tantas mudanças, não há mais tanto espaço para brincar com o dinheiro do cliente.
Blog do Fernando Coelho: Ainda na linha da pergunta anterior, qual seu segredo para “dizer a coisa certa” em uma campanha?
Gilberto: Se existe esse segredo, ele é tão secreto que nem eu sei. Na verdade, eu sempre valorizei muito a construção de uma boa estrutura de raciocínio, que tome o tempo e a profundidade necessários, mas entregue a proposta da marca de forma simples e sem frescura. Se tivermos isso claro, a "coisa certa" aparece quase naturalmente. O que chamamos de intuição no final das contas pode ser toda a informação acumulada vindo à tona. Mas sozinha pode ser apenas falta de informação.
Blog do Fernando Coelho: Para finalizarmos, em uma frase, qual seu Market Look? Qual sua visão de mercado, da vida e do mundo?
Gilberto: O que faz o ser humano notável é a sua capacidade de reinventar a vida todos os dias. Reinventar-se é o que há de melhor na vida. Sem isso não haveria evolução e nem diversão.

MINI CURRÍCULO
Giustina é Publicitário, Especialista em Marketing, com 25 anos de experiência nas mais diversas disciplinas da comunicação, tendo planejado para marcas como Claro, Vivo, Azaleia, Tramontina, Todeschini, Salton, Fila, Umbro e Iguatemi. Tem cerca de 40 cases premiados por diferentes instituições, como Associação Riograndense da Propaganda, Effie Awards Brasil e Jay Chiat Awards. É Diretor de Planejamento da Publicis Brasil para P&G, Nestlé, Habib's, UBS, SBT, Senac, entre outras marcas.